segunda-feira, 4 de maio de 2015

DESVIO DE FOCO DE QUEM ESTÁ BATENDO?

ATUALIZAÇÃO ESTÁGIO 31/03
Quarto dia de oficina.
Diante da turma pequena que apareceu nesse dia de oficina, tive que modificar um pouco meu plano de aula. As adaptações rondam o mundo teatral, elas podem surgir como uma forma de criar novas ações no teatro. São quase úteis.
Com poucos alunos fizemos um alongamento com o auxilio de bastões. Nada muito demorado, mas que de alguma forma ajudou na distração. O jogo que propus pra esse dia requeria concentração e quando eles estão muito dispersos a regra foge de foco então...
VAMOS JOGAR!
JOGO QUANTO VOCÊ LEMBRA? : O jogo consiste na divisão de foco- especialmente trabalhado no fichário da Spollin- que busca exercitar o sentido alerta do ator. Na primeira parte divide- se a turma em duplas. Um dos jogadores vai estar com um livro em mãos, ele vai ler esse livro ( silenciosamente) enquanto o outro jogador conta alguma história ( esse por sua vez pode explorar muito os efeitos sonoras, a altura da fala e etc.), um fato ao mesmo tempo. O objetivo é a divisão de foco na leitura e na fala do outro jogador, ao final pergunto quanto eles se lembram dos dois assuntos, qual o tema da leitura e sobre o que era a conversa.
Obviamente muitos tiveram dificuldades, se perdiam na leitura ou somente prestavam atenção na conversa do outro jogador. Acho que pelo fato de eu ter dito para eles que ao final faria uma pergunta eles se esforçaram ao máximo para buscar essa divisão. A maioria lembra mais das histórias contadas pelos parceiros, mas não saberiam dizer qual a ordem dos fatos. Um dos alunos não conseguiu dividir em nenhum dos dois focos, pelo fato de serem dois tipos diferentes, tentava se concentrar no que era mais fácil no seu ponto de vista, “Não deu muito certo” disse ele. Expliquei que para o ator, esses tipos de exercícios são primordiais para montá-lo em estado de alerta no palco ou fora dele. Constantemente o mesmo é exigido disso, atenção que deve ter no seu exterior, em tudo que está ao seu redor, para conseguir uma resposta rápida e espontânea. Essencial eu diria.
Decidi fazer a segunda parte do mesmo exercício depois de ouvir os comentários dos alunos. Tem o mesmo princípio só que desta vez em trio um jogador permanece no meio, esse vai dividir o foco em duas conversas ao mesmo tempo. As regras são simples, quem está no meio não pode pedir para repetir o que foi dito e para os outros dois que falam ao mesmo tempo devem evitar perguntas como “o que você acha...?” ou chamar a atenção com “ entoa,...”, “ ei,..”, você gosta...”. deve ser seguido como uma conversa normal. E o jogador que está no meio deve responder as perguntas, mesmo que não tenha a escutado. Realizando o rodízio entre o trio.
Nesse exercício eu consegui perceber a diferença do nível de atenção de alguns jogadores. Conversando ao mesmo tempo e de assuntos totalmente diferentes os que permaneciam no meio era nítido o desespero. Era perceptível quando o jogador começava a dar atenção para um dos assuntos, mesmo que ele estivesse de frente para um dos que conversavam com ele o olho acompanhava a divisão junto com a audição “olhando de canto” para o que estava atrás dele, esperando o momento que surgisse uma pergunta para responder, o ruim era quando apareciam duas perguntas ao mesmo tempo, então ele tinha que se desdobrar para responder. Uns optaram por permanecerem parados olhando para frente na maior parte dos tempos, outros viravam para quem fazia a pergunta. Uma das alunas achou outro modo de manter a conversa e a divisão, ao ser questionado ela estendia a resposta ao máximo até o momento de responder a próxima pergunta, era uma pergunta atrás da outra. Como era uma questão de improvisação em certos momentos a conversa parava ou ficava somente em um dos lados, o que quebrava a regra de manter a divisão de foco do jogador, então alertei os jogadores para que contassem aos mínimos detalhes para gerar assunto e perguntas e que em momento algum, parassem de falar.
JOGO QUEM BATE NA PORTA? : Esse jogo requer a interpretação na voz. Funciona da seguinte forma: um jogado fica atrás de algum lugar fugindo da visão da platéia, o mesmo deve criar um personagem e uma situação (ex: uma garotinha apertada querendo entrar no banheiro) e o jogador por sua vez deve interpretar e deixar a situação clara para a platéia através das batidas na porta, identificando-a. deixei claro que a idade do personagem deveria estar clara na voz.
Pelo local que estávamos a porta foi a única opção, mas por conta dos sons externos e pela pouca projeção das vozes, quase não foi possível escutar ,nem mesmo as batidas na porta, mas nada que prejudicasse o desenvolvimento do jogo. Fizemos mais uma adaptação.
As escolhas foram interessantes, das mais simples as mais complexas como um E.T pedindo ajuda. Nesse mesmo jogo da adivinhação surgiram algumas dúvidas dos próprios jogadores então eles começaram a fazer perguntas (está frio? Porque devo abrir a porta? E etc.), porém os jogadores deveriam responder... Não respondendo, enfatizando somente a voz e as batidas. Um jogador, por exemplo, estava preso do lado de fora de casa sendo que estava muito frio, então ele só falava o que parecia um “bater de queixo”, com as palavras sempre saindo cortadas, não deu pra perceber a idade mais todos os alunos concordaram que conseguiram visualizar a situação em que o personagem se encontrava. Ao final da atividade perguntei para eles se tiveram alguma dificuldade ou queriam acrescentar algo. Um aluno disse que apesar de só a voz “aparecer”, atrás da porta o corpo estava todo construído, “Eu era um policial querendo entrar na casa invadida por ladrões, eu fingi com as minhas mãos a armar que eu segurava ‘tava’ encostado na parede de costas e batendo na porta me preparando para entrar. Não adianta usar só a voz, o corpo se monta automaticamente quando se pede.”. O corpo e a voz estão ligados, quando precisamos ressaltar algum, por menor que seja o outro sempre aparece... E não está errado, acaba se tornando em uma linguagem poética em algumas situações.
Por conta do tempo não pude estender muito para aprofundar essa questão da voz, mas indaguei os alunos: Como conseguimos identificar o humor somente pela voz? Como conseguimos identificar somente escutando sem ver quem está chorando ou feliz?
Uma resposta que virá nas próximas aulas com mais jogos.

Fim de jogo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário