ATUALIZAÇÃO
ESTÁGIO 31/03
Quarto dia de oficina.
Diante da turma pequena que
apareceu nesse dia de oficina, tive que modificar um pouco meu plano
de aula. As adaptações rondam o mundo teatral, elas podem surgir
como uma forma de criar novas ações no teatro. São quase úteis.
Com poucos alunos fizemos um
alongamento com o auxilio de bastões. Nada muito demorado, mas que
de alguma forma ajudou na distração. O jogo que propus pra esse dia
requeria concentração e quando eles estão muito dispersos a regra
foge de foco então...
VAMOS JOGAR!
JOGO QUANTO VOCÊ LEMBRA? :
O jogo consiste na divisão de foco- especialmente trabalhado no
fichário da Spollin- que busca exercitar o sentido alerta do ator.
Na primeira parte divide- se a turma em duplas. Um dos jogadores vai
estar com um livro em mãos, ele vai ler esse livro (
silenciosamente) enquanto o outro jogador conta alguma história (
esse por sua vez pode explorar muito os efeitos sonoras, a altura da
fala e etc.), um fato ao mesmo tempo. O objetivo é a divisão de
foco na leitura e na fala do outro jogador, ao final pergunto quanto
eles se lembram dos dois assuntos, qual o tema da leitura e sobre o
que era a conversa.
Obviamente muitos tiveram
dificuldades, se perdiam na leitura ou somente prestavam atenção na
conversa do outro jogador. Acho que pelo fato de eu ter dito para
eles que ao final faria uma pergunta eles se esforçaram ao máximo
para buscar essa divisão. A maioria lembra mais das histórias
contadas pelos parceiros, mas não saberiam dizer qual a ordem dos
fatos. Um dos alunos não conseguiu dividir em nenhum dos dois focos,
pelo fato de serem dois tipos diferentes, tentava se concentrar no
que era mais fácil no seu ponto de vista, “Não deu muito certo”
disse ele. Expliquei que para o ator, esses tipos de exercícios são
primordiais para montá-lo em estado de alerta no palco ou fora dele.
Constantemente o mesmo é exigido disso, atenção que deve ter no
seu exterior, em tudo que está ao seu redor, para conseguir uma
resposta rápida e espontânea. Essencial eu diria.
Decidi fazer a segunda parte do
mesmo exercício depois de ouvir os comentários dos alunos. Tem o
mesmo princípio só que desta vez em trio um jogador permanece no
meio, esse vai dividir o foco em duas conversas ao mesmo tempo. As
regras são simples, quem está no meio não pode pedir para repetir
o que foi dito e para os outros dois que falam ao mesmo tempo devem
evitar perguntas como “o que você acha...?” ou chamar a atenção
com “ entoa,...”, “ ei,..”, você gosta...”. deve ser
seguido como uma conversa normal. E o jogador que está no meio deve
responder as perguntas, mesmo que não tenha a escutado. Realizando o
rodízio entre o trio.
Nesse exercício eu consegui
perceber a diferença do nível de atenção de alguns jogadores.
Conversando ao mesmo tempo e de assuntos totalmente diferentes os que
permaneciam no meio era nítido o desespero. Era perceptível quando
o jogador começava a dar atenção para um dos assuntos, mesmo que
ele estivesse de frente para um dos que conversavam com ele o olho
acompanhava a divisão junto com a audição “olhando de canto”
para o que estava atrás dele, esperando o momento que surgisse uma
pergunta para responder, o ruim era quando apareciam duas perguntas
ao mesmo tempo, então ele tinha que se desdobrar para responder. Uns
optaram por permanecerem parados olhando para frente na maior parte
dos tempos, outros viravam para quem fazia a pergunta. Uma das alunas
achou outro modo de manter a conversa e a divisão, ao ser
questionado ela estendia a resposta ao máximo até o momento de
responder a próxima pergunta, era uma pergunta atrás da outra. Como
era uma questão de improvisação em certos momentos a conversa
parava ou ficava somente em um dos lados, o que quebrava a regra de
manter a divisão de foco do jogador, então alertei os jogadores
para que contassem aos mínimos detalhes para gerar assunto e
perguntas e que em momento algum, parassem de falar.
JOGO QUEM BATE NA PORTA? :
Esse jogo requer a interpretação na voz. Funciona da seguinte
forma: um jogado fica atrás de algum lugar fugindo da visão da
platéia, o mesmo deve criar um personagem e uma situação (ex: uma
garotinha apertada querendo entrar no banheiro) e o jogador por sua
vez deve interpretar e deixar a situação clara para a platéia
através das batidas na porta, identificando-a. deixei claro que a
idade do personagem deveria estar clara na voz.
Pelo local que estávamos a porta
foi a única opção, mas por conta dos sons externos e pela pouca
projeção das vozes, quase não foi possível escutar ,nem mesmo as
batidas na porta, mas nada que prejudicasse o desenvolvimento do
jogo. Fizemos mais uma adaptação.
As escolhas foram interessantes,
das mais simples as mais complexas como um E.T pedindo ajuda. Nesse
mesmo jogo da adivinhação surgiram algumas dúvidas dos próprios
jogadores então eles começaram a fazer perguntas (está frio?
Porque devo abrir a porta? E etc.), porém os jogadores deveriam
responder... Não respondendo, enfatizando somente a voz e as
batidas. Um jogador, por exemplo, estava preso do lado de fora de
casa sendo que estava muito frio, então ele só falava o que parecia
um “bater de queixo”, com as palavras sempre saindo cortadas, não
deu pra perceber a idade mais todos os alunos concordaram que
conseguiram visualizar a situação em que o personagem se
encontrava. Ao final da atividade perguntei para eles se tiveram
alguma dificuldade ou queriam acrescentar algo. Um aluno disse que
apesar de só a voz “aparecer”, atrás da porta o corpo estava
todo construído, “Eu era um policial querendo entrar na casa
invadida por ladrões, eu fingi com as minhas mãos a armar que eu
segurava ‘tava’ encostado na parede de costas e batendo na porta
me preparando para entrar. Não adianta usar só a voz, o corpo se
monta automaticamente quando se pede.”. O corpo e a voz estão
ligados, quando precisamos ressaltar algum, por menor que seja o
outro sempre aparece... E não está errado, acaba se tornando em uma
linguagem poética em algumas situações.
Por conta do tempo não pude
estender muito para aprofundar essa questão da voz, mas indaguei os
alunos: Como conseguimos identificar o humor somente pela voz? Como
conseguimos identificar somente escutando sem ver quem está chorando
ou feliz?
Uma resposta que virá nas
próximas aulas com mais jogos.
Fim de jogo.
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